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Dia Quente

Olá Amigos, Cruz de ferro Foto: Valentine Moreno Murias de Rechivaldo - Manjarín - 23ª etapa Subida para Manjarín Foto: Renato Falzoni O dia começou quente, em dois sentidos, o sol e um desentendimento com a Val, que provocou um desencon

11 de Junho de 2004. Publicado por Equipe EcoViagem  

Olá Amigos,

Cruz de ferro

Cruz de ferro
Foto: Valentine Moreno

Murias de Rechivaldo - Manjarín - 23ª etapa

Subida para Manjarín

Subida para Manjarín
Foto: Renato Falzoni

O dia começou quente, em dois sentidos, o sol e um desentendimento com a Val, que provocou um desencontro na etapa e ocasionou mais um desentendimento, desta vez com o Renato. Os dois sumiram e com isso perdi imagens de um povoado espetacular chamado Castrillo de Polvizares. Esse lugar é todo de pedra, as ruas, a igreja, as casas... Um povoado dos mais aconchegantes que já vi. Ali cruzei um casal de ciclistas espanhóis que disseram que se fosse possível comprariam uma casinha para descansar da rotina de Barcelona.

Manjarín, lar do último dos templários

Manjarín, lar do último dos templários
Foto: Renato Falzoni

Em El Ganso encontrei o Renato e a Val e o estresse continuou. Resolvi escrever essas palavras enquanto descansava e comia algo para depois continuar o percurso. Conversei com os dois e nada melhorou. Segui assim mesmo. Apesar dos dois aqui comigo estou sozinho em muitos momentos e esse foi um deles.

Pôr-do-sol no alto da montanha

Pôr-do-sol no alto da montanha
Foto: Rodrigo Racy

Na saída do povoado aconteceu algo que era necessário documentar. Sei que será difícil repetir o momento e os dois, a Val e o Renato, pareciam estar em greve. Uma espécie de complô. Em Rabanal del Camino, o povoado seguinte, parei na igreja para rezar um pouco, pensar e tentar descobrir o que fazer para resolver a situação. Novamente conversei com eles, um de cada vez. Não resolvi como queria. Com o Renato, no fim, deu tudo certo, mas com a Val ainda terei pendências quando voltar para o Brasil. Pelo bem do projeto a equipe segue depois de quase desmoronar.

Castelo medieval em Ponferrada

Castelo medieval em Ponferrada
Foto: Valentine Moreno

Manjarín

Ruínas do que um dia foi um povoado no alto de uma montanha a 1400 metros. É quase nada no meio do nada. Ali existe hoje apenas uma casa, o refúgio de peregrinos, com uma espécie de cabana ao lado onde eles dormem. Essa cabana é toda feita de pedra e por dentro, de madeira. São dois andares de madeira rústica que faz lembrar uma casinha na árvore, tudo bem apertadinho.

Tomás, o hospitaleiro mais louco que já conheci, se diz o último dos templários. Recebe todos os peregrinos com o badalar de um sino localizado na entrada da casa. Quando cheguei, ele já sabia quem eu era, como estava fazendo o caminho e me deu dois regalos. Primeiro, recebi um carimbo especial na credencial, o selo de guardião do caminho. Ele me disse que esse carimbo é dado apenas para pessoas especiais. O outro presente foi um broche, símbolo dos cavaleiros templários.

Os Cavaleiros Templários

Os cavaleiros templários eram monges que cuidavam do caminho desde o Século IX. Deixaram de cuidar quando foram dissolvidos por uma força maior, a igreja católica, segundo Tomás.

Acácio, um hospitaleiro brasileiro, havia me dado uma pedra e dito que simbolizava o poder por causa de sua cor. Disse também para fazer com a pedra o que quisesse, poderia até dar de presente para alguém. Resolvi dá-la ao Tomás e sua reação foi espantosa. Antes que falasse qualquer coisa, ele me disse: “Poder! A cor é do poder e fico muito grato pelo regalo. Você é realmente uma pessoa especial e muitas respostas que procuro estão nessa pedra. Sei que com o passar do tempo os espíritos me dirão o que preciso saber”. O Tomás ainda adivinhou que ganhei essa pedra de uma pessoa estrangeira, que não era espanhola. Ele falou que se estou aqui é por um chamado divino, que só aqui poderei estar com meu espírito em paz e encontrar o que busco. Coisas do caminho... Vai entender...

Às 20 horas ele soa o sino e serve uma refeição a todos que ali vão pernoitar: sopa com pão, salada e sobremesa (morangos em calda, o melhor de tudo). A bebida é vinho, claro. Não poderia ser outro no Caminho de Santiago. Antes de começar a comer fizemos uma rápida oração em agradecimento aos alimentos ali oferecidos. Nesse lugar não se cobra por nada, tudo advém de doações voluntárias e tem funcionado assim há muitos anos. Depois do jantar, participamos de um ritual. Vestimos trajes específicos e com uma espada na mão rezamos e desejamos um bom caminho para todos. Foi inacreditável o que vivi ali naquele momento. Parecia ficção, mas era pura realidade! Esse é um lugar que um peregrino não pode deixar de passar.

Acordei às 7 horas com enxaqueca e tive de esperar amenizar para poder sair. Esperei duas horas e parti. O caminho nesse dia foi um dos mais alucinantes: só descida mesclando asfalto e terra. Os trechos de terra tinham também muitas pedras e foi tão difícil pedalar que esqueci do mundo. Adrenalina pura na veia. Quem assistir ao vídeo entenderá o que estou dizendo.

Ponferrada – Villafranca del Bierzo

Esta foi uma das etapas que mais exigiu esforço físico e psicológico. Passei mal no dia 6. Vomitei, tive febre e fiquei o dia todo na cama tentando dormir, isso depois de falar com minha avó pelo telefone e escrever parte desse boletim. Tive também dores fortíssimas nas pernas devido as duas etapas anteriores, uma só com subidas e a outra com descidas. Dor como essa nunca senti antes. O desgaste físico da descida é grande e deveria parar hoje, mas minha consciência não permite, dói mais que minhas pernas. No meio da etapa parei, chorei e dali não queria mais sair. O Renato estava bem na frente, a Val bem atrás, pensei: “só me resta seguir”. Continuei e o final da etapa foi ainda pior, um sobe e desce interminável. Creio que a força que tive hoje para chegar aqui veio da torcida de vocês que viajam comigo, dos demais peregrinos e de Deus.

Até o próximo!

Beijos e abraços,

No mais, o mesmo...

Rodrigo Racy

 

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