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PN do Araguaia - TO

O Parque Nacional do Araguaia foi criado em dezembro de 1959, ocupando uma área 5.623 km2, que representa 30% da ilha, o restante pertence à terra indígena dos índios Karajá e Javaé.

11 de Março de 2006. Publicado por Eduardo Issa  

Como sempre o Brasil impressiona com suas dimensões continentais, mais um exemplo disto é a llha do Bananal, no Estado do Tocantins, com seus 350 km de extensão é considerada a maior ilha fluvial do planeta. A Ilha do Bananal apresenta uma área maior que a porção de terra comandada por Fidel Castro, ou seja, daria para encaixar Cuba dentro da Ilha.

A imensidão do Araguaia proporciona cenários que são verdadeiras pinturas.

A imensidão do Araguaia proporciona cenários que são verdadeiras pinturas.
Foto: Eduardo Issa

O Parque Nacional do Araguaia foi criado em dezembro de 1959, ocupando uma área 5.623 km2, que representa 30% da ilha, o restante pertence à terra indígena dos índios Karajá e Javaé. As paisagens do parque são compostas basicamente por 3 diferentes fitofisionomias: Cerrado, Pantanal, Floresta Amazônica e unindo estes biomas ainda surgem áreas de transição. Os dois principais rios que cercam a Ilha do Bananal são os rios Araguaia e Javaés, sendo que o Javaés nada mais é que um braço menor do Araguaia que se divide no início da ilha seguindo outro rumo e reencontrando o Araguaia no outra extremidade. A paisagem do parque tem duas épocas bem distintas, a seca e a alagada. Na primeira, extensas praias se formam ao longo do rio trazendo um espetáculo de cores e desenhos, na segunda, onde as chuvas predominam, milhares de lagos se espalham no interior da ilha, um verdadeiro santuário de muitas espécies de peixes. Esta grande piscosidade atrai para as áreas do parque uma enorme variedade de aves como garças, tuiuiús, socós, biguás, águia-pescadora e muitas outras espécies. Não é difícil descobrir que a pescaria se tornou um grande atrativo desta região, mas é importante que os visitantes pescadores respeitem a piracema e também obtenham no Ibama uma autorização para a pesca. Nas margens das áreas alagadas é comum a presença de buritis, palmeiras, ipês e o jenipapo, que os índios utilizam para tingir a pele nos rituais e também para dar cor às palhas utilizadas na confecção de artesanato em cestaria e cerâmica.

Visto de cima, o Rio Araguaia é uma imagem espetacular com suas praias e milhares de lagos.

Visto de cima, o Rio Araguaia é uma imagem espetacular com suas praias e milhares de lagos.
Foto: Eduardo Issa

Os índios Karajá foram os primeiros habitantes da Ilha do Bananal e segundo registros históricos, os primeiros contatos aconteceram em 1658, quando jesuítas vindos do Pará visitaram a região. As duas principais aldeias dentro da ilha estão em margens opostas, a aldeia de Boto Velho na margem do rio Javaés e a aldeia de Macaúba, que está na margem do Araguaia. Uma estrada liga as duas aldeias e corta a ilha do Bananal, mas a estrada só é transitável na seca, nos meses de setembro, outubro e novembro, quando as águas estão baixas. Para cruzar a estrada os índios cobram uma taxa, uma espécie de pedágio, e o visitante ainda pode conhecer a aldeia e comprar as belas peças de artesanato confeccionadas por eles. A situação atual do Parque Nacional do Araguaia está bastante delicada, pois no final de 1999 os índios invadiram as instalações do Ibama e destruíram praticamente tudo, reivindicando a totalidade da ilha em nome deles. Atualmente esta é a situação do parque, sua área foi tomada pelos índios, alguns veículos (cerca de 5), também estão em poder deles e qualquer operação dos funcionários do Ibama está proibida por Brasília.

A piscosidade do rio atrai uma enorme quantidade de aves, entre elas o tuiuiu e o socó-boi.

A piscosidade do rio atrai uma enorme quantidade de aves, entre elas o tuiuiu e o socó-boi.
Foto: Eduardo Issa

A nossa entrada dentro da área do parque foi bastante tensa, mesmo tendo visitado a região como turistas, pois não nos identificamos e nem pudemos explicar o trabalho que estávamos realizando, corríamos um grande risco de virarmos reféns dos índios e ainda ter os equipamentos apreendidos por eles. Quando desembarcamos na área onde constava à sede, o escritório e as residências dos funcionários, fui registrando tudo e sem perceber, quando chegamos no último local onde estaria o prédio principal, nos deparamos com um índio Karajá. O índio que vestia camisa da `Ferrari` e fumava seu cigarro `Hollywood`, estava ali confeccionando um arco e flecha e alguns remos, sentado no que restou da edificação da sede do Ibama. Após me ver chegando com toda aquela parafernália de equipamentos, ele olhou apreensivo e notei que ficou desconfiado, querendo saber qual era o motivo de nossa visita. Depois de alguma conversa, Kennedy, que estava me acompanhando nesta empreitada arriscada, comprou um remo que acabara de ser feito e fomos embora rapidamente. Ficamos preocupados com aquele incidente e não foi à toa, no dia seguinte já corria a notícia de que estaríamos lá para registrar a pesca predatória de pirarucu feita pelos índios. Ficamos mais algumas horas no município de Santa Terezinha-MT, localizado quase em frente à aldeia Macaúba e depois voltamos para o rio, regressando para a cidade de Caseara, no Tocantins, que foi nossa base durante os dias de trabalho.

Com o cair da tarde, o sol se põe deixando as águas douradas e o céu com cores vibrantes.

Com o cair da tarde, o sol se põe deixando as águas douradas e o céu com cores vibrantes.
Foto: Eduardo Issa

Conversando com alguns moradores, índios e funcionários antigos do Ibama, não foi difícil descobrir o porquê da situação do parque ter chegado a este ponto. Segundo alguns relatos, as últimas administrações do Parque Nacional do Araguaia foram truculentas e hostis com os índios, acendendo esta revolta que atualmente ronda a área. Alguns sofreram agressões, outros foram ameaçados com armas, um conjunto de ações que tornou a situação insustentável. Segundo Sr. Tocantins, um dos funcionários mais antigos do parque e que mantém um bom relacionamento com os índios, ainda há uma chance de dialogar pacificamente com os índios e retomar o bom relacionamento, restaurando a integridade do parque.

Índio Karaja com camisa da Ferrari e cigarro hollywood na boca, confecciona arco sentado no que restou da sede do Ibama.

Índio Karaja com camisa da Ferrari e cigarro hollywood na boca, confecciona arco sentado no que restou da sede do Ibama.
Foto: Eduardo Issa

Depois de fazer este registro terrestre e de barco, restava ver o imenso rio Araguaia de cima. Com o apoio do Naturatins, órgão responsável pelo Meio Ambiente no Estado do Tocantins foi possível sobrevoar e contemplar um belíssimo espetáculo de cores e formas que vão se desenhando ao longo do rio. Nas áreas mais alagadas milhares de lagos dão um show de cores e abriga os peixes mais cobiçados da região a pirarara, o tucunaré e o pirarucu, que aqui também é chamado de pirosca. Nas áreas mais secas são as praias que surgem entre os meandros deste rio majestoso. Apesar de toda esta situação do parque, espero que a direção do Ibama local e em Brasília voltem a negociar com os índios para que o parque nacional não deixe de existir.

Sabemos das necessidades dos índios e de seus direitos, mas uma gestão compartilhada entre índios e brancos me parece viável.

Agradecimentos ao Naturatins, e aos funcionários do Parque do Cantão que auxiliaram nos deslocamentos e também não mediram esforços para a realização de um sobrevôo na área do parque.

Seguindo para o PN Chapada dos Veadeiros - Goiás

Lagoa da Confusão

 

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