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Enfim em Viña del Mar

Foram apenas cinco dias, mas cheios de ação e de lindas paisagens. Olhando para trás e comparando com o resto da viagem me parece que esses dias vão deixar uma impressão muito forte na minha lembrança. Saímos de Mendoza usando pequenas estradas secundári

17 de Novembro de 2002. Publicado por Manoel Morgado  

Foram apenas cinco dias, mas cheios de ação e de lindas paisagens. Olhando para trás e comparando com o resto da viagem me parece que esses dias vão deixar uma impressão muito forte na minha lembrança.
Saímos de Mendoza usando pequenas estradas secundárias, passando por vinhedos lindos tendo ao fundo as montanhas dos Andes. O dia estava maravilhoso com um céu azul que destacava ainda mais as montanhas nevadas.
Logo começou a subida e o sempre presente vento contra e com isso o esforço a cada pedalada. Mas a paisagem era tão bonita e as paradas para fotografar tão freqüentes que o primeiro dia passou tranqüilo. Dormimos em uma pequena cidadezinha chamada Porterillos a 1450 metros às margens do Rio Mendoza.
No dia seguinte, continuamos a subir e a paisagem foi ficando cada vez mais árida e parecida com o que eu me lembro do Aconcagua. As paredes das montanhas com mil tons de marrom, vermelho e cinza. A temperatura foi caindo e o gelo se aproximando. Aos poucos a altitude também foi deixando cada vez mais difícil pedalar principalmente com o vento contra que ficou cada vez mais forte. A combinação de vento contra, altitude, subida e estrada esburacada fez com que cada quilometro fosse um esforço, mas, mais uma vez a fantástica paisagem compensava tudo isso. Eu também sabia que o meu objetivo, o Pacífico, estava cada vez mais próximo.
Nesta noite dormimos em uma estação de ski chamada Penitentes a 2700 metros de altitude. A lua quarto crescente iluminava as montanhas nevadas e, apesar do frio, ficamos depois do jantar do lado de fora do hotel, hipnotizados pela paisagem.
No terceiro dia passamos em frente ao Aconcagua e me deu uma incrível vontade de que esses dias que me separam da escalada passassem rápido para eu poder estar lá, no cume a 6962 metros. Mas isso tem que esperar mais um pouco.
Depois de muito esforço venci os últimos quilômetros até o túnel internacional que separa a Argentina do Chile, uma obra de engenharia fantástica com quase 4 quilômetros de extensão. De lá até Viña Del Mar 3200 metros de desnível.
Os primeiros 10 km foram uma alucinante descida perdendo 1000 metros de altitude, os famosos Caracoles. Depois uma suave descida acompanhando o rio Aconcagua que drena as águas da montanha do mesmo nome e que deságua no Pacífico. Mas não seria ainda neste dia que chegaria lá. Tinha ainda mais 200 km de estrada para concluir esta etapa.
No quarto dia, ainda com vento contra, percorri os últimos 100 km até meu objetivo: o Pacífico. A contagem regressiva foi emocionante. Cem quilômetros, sessenta quilômetros, vinte quilômetros e finalmente lá estava eu, de frente para o Pacífico em Viña Del Mar.
O dia estava nublado e frio bem diferente do que eu tantas vezes tinha imaginado. Por onze meses pensei e vi o filme na minha cabeça da minha chegada a e este lugar. Apesar do frio corri pela areia e me atirei nas águas geladas do Pacífico. Tinha concluído quase tudo o que eu tinha me proposto. Tinha, em dois meses, corrido 300 km, remado 400 km e pedalado 3.300 km. Foram 4.000 km do Atlântico ao Pacífico! Agora só resta o Aconcagua, o ponto culminante das Américas!
Comemos uma deliciosa paella em um restaurante a beira mar e resolvemos votar no mesmo dia para a Argentina e voltamos a dormir em Porterillos. Que diferença viajar de carro...Todo o esforço para percorrer aqueles quilômetros desaparecia com uma simples acelerada, um pequeno movimento do pé no acelerador. Mais uma vez, me veio a certeza de que viajar de carro é uma forma muito pobre de conhecer algum lugar. Dentro do carro não temos a noção da temperatura, do vento, da altitude, dos cheiros e até da paisagem. Nossa visão fica restrita ao pequeno espaço do pára-brisa. Apesar do esforço, pude mais uma vez valorizar o quanto viajar de bicicleta é mais completo e mais recompensador. O que tinha feito em dois duros dias de bici foram percorrido em poucas horas de carro.
Queria chegar em Porterillos, pois no caminho de ida tinha “namorado” o rio Mendoza e queria descê-lo de caiaque. Com a ajuda da Argentina Rafting, uma excelente companhia local, organizamos a descida. Eu em um caiaque individual e a Celina, que nem sequer tinha feito rafting na vida, de caíque duplo com o Martin, o dono da companhia, como guia.
Poucos esportes me dão tanto prazer quanto descer um rio caudaloso em um pequeno caiaque de corredeira. A adrenalina fluindo direto, o ruído incessante das águas, a paisagem alucinante das montanhas nevadas ao redor. A descida durou apenas 90 minutos, mas que intensos 90 minutos foram estes. O rio era classe 3, ideal para minhas habilidades de caiaquero. Apesar de praticar este esporte há muitos anos no Nepal, eu não tenho muitas chances de faze-lo, então a cada vez que vou para o rio estou meio enferrujado e com isso a adrenalina aumenta ainda mais. Só me senti mais solto e confiante quando já estava acabando a descida, mas ficou a vontade de descer novamente antes do Aconcagua já que vou passar por Porterillos novamente no meu caminho para a escalada.
Agora doze dias de merecido descanso até o dia 29 de novembro quando começo o Aconcagua.

Vinhedos de Mendoza e ao fundo os Andes

Vinhedos de Mendoza e ao fundo os Andes
Foto: Celina Cezar

Começando a subida dos Andes

Começando a subida dos Andes
Foto: Celina Cezar

Manoel e sua equipe de apoio a caminho do Chile

Manoel e sua equipe de apoio a caminho do Chile
Foto: Celina Cezar

Na fornteira com o Chile a 3195 metros de altitude

Na fornteira com o Chile a 3195 metros de altitude
Foto: Celina Cezar

Manoel e Celina caicando nas corredeiras do Rio Mendoza

Manoel e Celina caicando nas corredeiras do Rio Mendoza
Foto: Arquivo Argentina Rafting

 

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