25 de Fevereiro de 2003. Publicado por Equipe EcoViagem
A região de Aparados da Serra abriga algumas das paisagens mais impressionantes do país. Os rochedos afiados formam o maior cânion do Brasil, Itambezinho, que significa `pedra afiada` em tupi-guarani. O nome Aparados da Serra vem da forma dos penhascos que parecem ter sido aparados por um escultor, um verdadeiro monumento natural.
A borda superior dos cânions pertence ao Rio Grande do Sul, enquanto que a parte baixa é de Santa Catarina. Ficamos hospedados em Praia Grande-SC, no Refúgio Ecológico Pedra Afiada, a convite das agências Caá-etê e Pedra Afiada Adventures.
O Pedra Afiada está simplesmente instalado de frente para o cânion do Malacara. Assim que chegamos, em torno do meio-dia, subimos no mirante, o céu estava limpinho e tiramos muitas fotos. O acesso da BR-101 é fácil e bem sinalizado. A estrada para chegar ao Refúgio é de terra.
Fomos bem recebidos e acomodados. O Refúgio é aconchegante, encantador, colorido, alegre, com uso sustentado de energia. Está localizado no chamado Fundão da cidade, que faz a divisa entre SC e RS.
Antigamente, os cânions eram vistos como rachaduras amedrontadoras e, por isso, existe a história de uma mulher, D. Vicença, que não temia o Fundão, vivia neste reduto de vida selvagem. O Malacara era o `Buraco de Vicença`, uma mulher cheia de fibra, valente, que vestia bombacha e bota, andava a cavalo e usava pistola. Após sua morte, surgiu uma substituta, Rosinha, que apesar do nome e nenhum parentesco com Vicença, herdou sua valentia, causando temor para o pessoal da região.
Após o almoço, Jean (proprietário do Pedra Afiada) sugeriu que fôssemos à piscina natural do Rio Malacara, que passa ao lado do Refúgio. Caminhamos por uma hora pelas pedras dentro do rio com o sol forte. A água geladinha nos pés garantia a sensação extraordinária de seguir a trilha em direção ao Malacara.
Chegamos à piscina natural com 3 metros de profundidade, não havia mais ninguém por ali. Um ventinho gostoso e a massagem das pequenas quedas d`água no poço revigoraram todas as nossas energias e nos sentimos mais do que bem recebidos para nossos dias na região!
Além da água deliciosa, a mata ao redor preenchia nossos olhos de cores, enquanto o Malacara parecia zelar por nós! Mais uma hora de caminhada para a volta...
No final da tarde fomos conhecer o centro de Praia Grande que, aliás, não é praia e nem grande, mas possui este nome graças à grande praia de seixos rolados que se formou pela mudança de curso do rio Mampituba, que divide Praia Grande (SC) de Mampituba (RS).
Após o café, falamos com Jean e decidimos a nossa programação. O tempo em Aparados, principalmente no verão, é muito instável devido às inversões térmicas. Como a parte baixa está próxima do nível do mar, a massa de ar quente se choca com a de ar frio que vem do alto da serra e, de uma hora para outra, fecha tudo e chove.
Saímos do Refúgio em direção à Cambará do Sul, que é a cidade onde estão as entradas da parte alta dos dois Parques. A estrada de 38km é de terra e muito bonita, com paisagens belíssimas durante a subida da serra. Diferente de Praia Grande, o clima em Cambará é bem mais frio. É também uma cidade pequena, e muito bonitinha, possui mais de 15 pousadas entre urbanas e rurais para atender o turista. Visitamos o centro cultural que possui informações turísticas e uma exposição fotográfica muito legal.
Finalmente chegamos ao Cânion Fortaleza, onde o carro é deixado em um ponto a 20 minutos de caminhada até a borda do cânion. O tempo já estava instável, muitas nuvens encobriam e descobriam as formações, mas a imponência e a beleza das rachaduras de 900m de profundidade nos arrepiaram mesmo sem as mais belas fotos, rendendo mais de hora de contemplação.
É também no Cânion Fotaleza que está a Pedra do Segredo, uma misteriosa rocha de 5 metros de altura, suspensa por uma pequena base que não está no seu centro. A impressão que dá ao chegar nela, é que a qualquer momento ela pode cair. Mas isto não ocorre devido ao fato de ter sido esculpida pelo processo de erosão, e não ter rolado e parado naquele ponto.
Fizemos esta trilha mas, infelizmente, a neblina não colaborou para fotos. Por isso a Secretaria de Turismo de Cambará do Sul nos emprestou uma foto da Pedra do Segredo em um dia de sol, que não foi o nosso caso!
Logo após o café, fomos ao Rio Mampituba, em Praia Grande, para fazer um bóia-cross. Foram 2 horas de descida, o rio estava calmo, o que proporcionou um passeio muito gostoso entre propriedades rurais que estão no entorno e áreas de mata nativa.
Cruzamos para o outro lado do Rio Mampituba, e em cerca de 40 minutos deixamos o carro e iniciamos a trilha, acompanhados pela Renata e o proprietário do terreno. A trilha era bem fechada e cheia de vida, com muitas flores e árvores da Floresta Ombrófila densa. Após 30 minutos pela mata chegamos à queda de 70 metros.
Um lugar especial! Quando chegamos debaixo da cachoeira um arco-íris formava-se ao seu redor, era lindo, nos divertimos. Passamos um bom tempo aproveitando a água e o visual. Depois de um lanchinho, continuamos nosso passeio. Voltamos pela mesma trilha, pegamos o carro e seguimos em direção à Pedra Branca. No alto da serra, a Pedra Branca serviu de refúgio para muitos escravos que serviam às antigas fazendas, e é por isso que a população negra existente na região encontra-se neste entorno.
Paramos no vale da Pedra Branca para nadar no rio, tirar fotos da ponte pênsil, onde o ângulo é muito bom, mas, diga-se de passagem... a ponte está caindo aos pedaços, eu (Claudia) quase não fui!
À noite fomos convidados por Aurélio, vice-prefeito de Cambará, para conhecermos um novo empreendimento da região, totalmente inédito no Brasil: o Parador da Montanha. Tivemos a oportunidade de conhecer e usufruir de uma estadia em uma barraca térmica instalada com muito requinte nas margens do Rio Camarinhas.
Além da visita, a simpatia do sr. Sadi nos surpreendeu na chegada. Fomos conhecer as instalações (a casa de banho, deck e restaurante) e conduzidos à nossa barraca. A proposta é de um típico acampamento, mas com luxo e muito conforto. Simplesmente o MÁXIMO! Muito bom gosto na decoração, no tempero e na criatividade, fizeram deste estabelecimento uma curiosa e incrível hospedagem. Adoramos!
Acordamos no Parador da Montanha, o céu estava limpinho, já saímos tirando fotos. Após o café, o tempo já estava completamente fechado, ficamos pasmos!
Encontramos o nosso grupo de 10 pessoas que estava com o Pedra Afiada Advetures para visitarmos juntos o Parque Nacional Aparados da Serra. Paramos no centro de visitantes para ver fotos, mapas e receber as orientações. Iniciamos a Trilha do Vértice com 1,4 km ao todo, bem tranqüila, passando por bosques de araucárias, onde o guia nos deu explicações, contou curiosidades e enfatizou que hoje restam apenas 10% da cobertura florestal original de araucárias.
Mais à frente, pudemos ver a vegetação chamada de vassoura, e soubemos que esta planta originou o nome de Serra do Faxinal, já que as pessoas costumavam utilizar a planta para fazer vassouras e fazer a faxina. Chegamos ao mirante da cachoeira do Véu de Noiva, que possui 720m de altura! Estava um pouco seca, já que seu volume depende das chuvas. Mesmo assim ela é surpreendente! Em seguida, fomos à Cachoeira das Andorinhas, que possui este nome pelo volume de andorinhas que entram e saem do vão das rochas. Demais!
Seguimos para a Trilha do Cotovelo, são 6 km de ida e volta. Após 3 km chegamos ao mirante do cotovelo, na beirada do Cânion do Itambezinho, onde tivemos uma visão geral da área: são 5800 m de extensão e 720 m de profundidade. Ele junta-se aos cânions no Parque Nacional Serra Geral. Sem palavras, é demais, muito lindo!!!
No final da trilha o grupo todo sentou-se numa pedra e fizemos um minuto de silêncio proposto pelo guia para ouvirmos os sons da natureza... Ah, que bom. Fotos, sorrisos, euforia, não queríamos mais ir embora. Mas o guia nem teve tanto problema - ao anunciar o almoço que nos esperava, a fome guiou todos de volta para o carro.
Em Praia Grande, comemos muito bem no restaurante Marina. A maioria dos passageiros era vegetariana (inclusive eu - Claudia) e fizeram um almoço especial, estava ótimo.
O calor estava sugestivo para um sorvetinho, todos toparam.... depois dessa, ninguém queria saber de mais nada, aliás queria: banho, cama, rede, o sossego do Refúgio! Fomos correndo para lá!
O dia amanheceu ensolarado e o grupo estava animado para a trilha do Rio do Boi. Tomamos café, pegamos os lanches de trilha e nos mandamos.
O Rio do Boi é o que corta o Cânion do Itaimbezinho, e recebe também as águas das cachoeiras do Véu de Noiva e das Andorinhas, que vimos no dia anterior na parte alta do cânion. O nome do rio é por causa da quantidade de bois que caíam no cânion e depois apareciam mortos nas corredeiras do rio... coisa de antigamente, pois hoje em dia não tem mais gado na parte alta por causa dos parques.
Após um bom alongamento ao lado da guarita de fiscalização do Ibama, iniciamos a caminhada por uma trilha em meio à mata e em 30 minutos chegamos ao Rio do Boi - largo e cheio de pedras. Dali para frente não tinha mais trilha e seguiríamos por dentro do rio até as encostas altas do cânion.
Mais meia hora por dentro do rio e chegamos no `Escorrega`. O sol estava forte e já estávamos suados... o Jean nos mostrou como fazer e logo já estávamos todos prontos para experimentar o rala-coxa - digo, o `escorrega`... foi muito legal!
Refrescados e `adrenados`, nos vestimos continuamos a caminhada. Ajuda aqui, ajuda ali.... o grupo seguiu unido e todo mundo ajudava todo mundo nos lances mais difícieis.
Tínhamos que caminhar pelas pedras e pelo leito do rio. A impressão era de que estávamos entrando no coração da montanha. Muitas energias positivas... Estávamos todos muito felizes cada um vencendo seus limites, mas ao mesmo tempo todos unidos e interagindo com a natureza à nossa volta.
Caminhamos neste super astral por cerca de mais duas horas. As pedras foram aumentando de tamanho e as paredes laterais do cânion foram ficando cada vez mais altas. Estávamos lá dentro! De repente.... UAAAU!!! Uma cachoeira despencava do alto da parede à nossa esquerda.
Queríamos parar ali, mas o Jean disse que deveríamos segui-lo. Logo na frente nos surpreendemos de novo: outra cachoeira maior ainda despencava do alto da parede à nossa direita. Demais! Fui o primeiro (Marcelo) a entrar debaixo da queda... Que delícia! Me reabasteci de energias positivas na cachoeira e de calorias comendo meu lanche de trilha enquanto admirava o lugar onde estava....
Já era meio de tarde e o tempo começou a fechar. Estávamos dentro do cânion e qualquer chuva na cabeceira poderia complicar a nossa volta. Tratamos de pegar as mochilas e começar o retorno pelo mesmo caminho.
Fechamos a viagem com chave de ouro!
Caá-Etê Ecoturismo & Aventura
www.caa-ete.com.br
(51) 3338.3323
(51) 3338.1888
falecom@caa-ete.com.br
Refúgio Ecológico Pedra Afiada
Estrada da Vila Rosa s/n - Praia Grande/SC
www.caa-ete.com.br/pedraafiada
(48) 532.1059
repa@caa-ete.com.br
Parador Casa da Montanha
Cambará do Sul/RS
www.casadamontanha.com.br/parador
(54) 286.2544
(54) 9973.9320
adventures@casadamontanha.com.br
Programe-se para visitar os parques nos dias certos, às segundas e terças-feiras o Parque Nacional Aparados da Serra não abre.
Ir de carro 4x4 é a melhor opção, pois as estradas são de terra e um carro de passeio pode `sofrer` um pouco.
De outubro a abril, as cachoeiras e piscinas naturais são mais agradáveis para banhos.
De julho a setembro é o auge do inverno, com freqüentes geadas e possibilidade de neve.
A melhor época para visualização dos cânions é de maio a julho, com algumas variações de ano para ano.
No verão o horário mais indicado para se ter boas paisagens do alto dos cânions é pela manhã, pois à tarde a massa de ar quente da parte baixa se encontra com o ar frio da parte alta e as nuvens começam a aparecer.
Por conta da diferença de altitude, Cambará do Sul tem uma temperatura cerca de 5 graus abaixo de Praia Grande.
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