5 de Novembro de 2003. Publicado por Equipe EcoViagem
A Ilha de Marajó chega a chocar devido à infinidade de peculiaridades a serem vistas, apreciadas, curtidas ou degustadas.
O Caboclo marajoara é o tipo étnico predominante, e o vaqueiro, um de seus variantes, é o profissional mais destacável. Resultante da miscigenação branco-índio e branco-negra em menores proporções, o caboclo realizou e aprendeu tudo do índio e do português, assimilou valores do negro e soube mesclar, com inteligência, cultura e habilidades para dar o toque especial à vida marajoara.
Do convívio com o búfalo, animal chegado posteriormente, à harmonia com a Ilha, fazendas imensas, praias de água doce, pássaros aos milhares, e animais silvestres. Infelizmente, a caça ainda faz parte da cultura, mas a carne de búfalo e os peixes são os principais pratos.
As tradicionais danças, os pratos típicos regados a frutas exóticas, a vida do fazendeiro, do pescador, do vaqueiro e do caboclo, fazem do Marajó um excelente local para a prática do turismo rural e ecoturismo, onde o visitante apenas presencia o dia-a-dia do povo, a rotina dos pássaros, das fazendas... Algo natural e encantador. As atividades turísticas, em alguns pontos, estão começando agora, e o povo está mostrando, cada vez mais, toda a sua boa vontade e simpatia para lidar com o turista. A experiência é inesquecível.
A cerâmica marajoara, legado de uma tribo indígena de cultura avançada que há 3000 anos povoou a Ilha, é a arte mais reproduzida por artesãos da região. Estes índios dominavam a técnica da horticultura na floresta e desenvolviam a agricultura itinerante.
Habilidosos arquitetos, os marajoaras tinham estratégias para preservar suas casas nas épocas de cheia. Por volta de 1300, esse povo sumiu misteriosamente.
A diversidade começa por Joanes, uma cidadezinha próxima ao Salvaterra que, além de ruínas jesuítas, tem imensa praia de areia fina e água doce com ondas!
Iniciamos nossa manhã com um passeio pelo Igarapé a remo. Por um dia, ficamos hospedados na Pousada Ventania , onde tem-se uma incrível vista da praia. Joanes é um local que guarda suas características de vilarejo, interessante de ser observada.
Almoçando na praia, ouvimos um som de carimbó, nos aproximamos e havia um grupo de jovens tocando, cantando e dançando o tradicional carimbó. Imediatamente, fomos convidados a assistir, dançar, e nos pediram desculpas por não estarem com as roupas tradicionais, já que era apenas um momento de farra! Uma prova de que a dança folclórica, de influência indígena, é algo vivenciado na cultura marajoara e não somente resgatada para o turismo. É lindo e contagiante!
De noite, fomos até a estrada de asfalto (a única em Joanes) em busca do Tacacá da D. Carmem, bem indicado pela pousada. Era domingo e a cidade toda vai à igreja e, estrategicamente, D. Carmem monta sua barraca no caminho. Para quem nunca ouviu falar, o Tacacá é um prato típico do Pará, servido em cuia, e que leva: Tucupi (um caldo amarelo, extraído da mandioca e fervido para tirar o `veneno`), a Goma (Tapioca diluída), folhas de Jambu (erva que deixa os lábios dormentes) e camarões secos. Provamos o delicioso e forte Tacacá em um clima bem regional, pouca iluminação, pessoal local e até trilha sonora do boteco.
Há 50 minutos de voadeira, saindo do Porto de Soure, está a Fazenda Sanjo. No caminho, o Furo do Miguelão, uma abertura no mangue do Rio Paracauary, que passa por dentro de uma vegetação fechada, muito bonito, diz a lenda que foi aberto à mão. Todo o caminho parece resumir-se em água, céu e mangue. Mas o mangue do Marajó é excepcional, chega a 30 metros de altura e, naturalmente, agrega a deste contexto inúmeras espécies de pássaros facilmente visíveis.
O trajeto para a Sanjo permite a `aclimatação`, fazendo o turista receber tudo o que verá a seguir como alguém privilegiado, e não é difícil sentir-se assim ao visitar um lugar destes! O seu propósito, segundo D. Ana Tereza, proprietária, é proporcionar ao hóspede a vivência em uma fazenda marajoara com mais de 30 anos de tradição, e também colocá-lo em contato com a natureza preservada.
A chegada na propriedade é cheia de estilo, da voadeira montamos nos cavalos já celados enquanto as mochilas foram levadas em uma charrete puxada por búfalos.
A Sanjo possui grande rebanho de búfalos e também cria cavalos. O passeio mais emocionante é a tocagem de búfalos. Saímos cavalgando entre os campos infinitos, nesta ocasião (inverno) secos, observando a rica fauna: bandos de guarás, garças, colhereiras, marrecos e jaçanãs. Uma paisagem de encher os olhos... Aos poucos, com a presença dos vaqueiros, fomos reunindo os búfalos e alguns cavalos e então tocamos a manada para o curral.
A luz do fim do dia desenhava silhuetas e compunha paisagens cinematográficas. Como todas as fazendas no Marajó, a comida é farta, típica e variada, cada uma esconde algumas receitas familiares, D. Ana Tereza faz uma sopa de queijo de búfala imperdível, além de um arroz de camarão com ingredientes fora do sério!
A lua cheia nasceu e fomos contemplar a noite em uma passarela em meio ao campo, de frente para uma mata.
Na janela, um bando de jaburus festejava o amanhecer na Fazenda Sanjo. Café farto e típico, Ana Tereza fez questão de que provássemos o bolinho de tapioca, a tapioquinha, ricota feita por ela mesma, a rabanada... Cheios de energia, saímos montados em BÚFALOS!!!! para nossa pesca. Por incrível que pareça, são bichinhos bons de se montar e, para a surpresa: correm pra valer!
Como havíamos calculado a melhor hora da maré, bastava colocar a isca no lago e já puxávamos uma piranha. Com apenas uma hora de lazer, saímos distribuindo piranhas para o jantar de todas as casas da fazenda, inclusive a nossa! No jantar: caldo de piranha. Divino!
No trajeto da volta, os jacarés da Sanjo deram as caras mas, infelizmente, foram mais rápidos que a câmera fotográfica.
Em meio aos campos da Sanjo, há espécies de `ilhas` de mata nativa. Em uma delas, foi aberta uma trilha interpretativa. Fizemos o trajeto identificando várias árvores que possuem seus nomes em placas de madeira. Entre elas, o Breu Branco, que solta uma substância com cheiro forte e agradável. Foi utilizado recentemente pela natura para fazer perfumes.
Para descansar, um balanço natural de cipó. Da sede da fazenda, ouve-se diariamente os gritos das guaribas que estão nas matas. Na caminhada, tivemos o prazer de encontrá-las pessoalmente!
Em meio à uma trilha, Ana Tereza, a fim de perdurar a cultura marajoara, organizou um cemitério, com réplicas de cerâmicas marajoaras. Ana preocupou-se em nos mostrar como são encontradas, até hoje na fazenda, estas peças milenares. O cemitério é tido como uma homenagem aos índios.
Ilha Encantada de gente dourada
Caboclo, vaqueiro, caiçara e fazendeiro
Que tanta riqueza, cultura, vida, natureza....
No igarapé, na mata de igapó
As garças, tucanos, pica-paus, maguarys...
E a canoa, que não destoa...desliza na boa
De baixo de açaís, ao lado dos caranguejos e rodeada das guaribas.
Gigantes fazendas, de campos infinitos
Ora secos, ora alagados
Os pássaros aos gritos, cenas de arco-iris: guarás, garças azuis, jaburus.
Colhereiras em harmonia com Búfalos e jacarés.
Que terra mais farta e jeitosa
Em todo canto, dá o que comer:
Nos lagos, saborosos peixes e crustáceos,
Nas árvores frutas cheias de energia.
Murici, Tucupi, Açaí, Buriti, Bacuri, Caju, Cupuaçu, Tacacá
Espírito Marajoara impregnado de cultura indígena! Nas palavras, nos hábitos, nas comidas e folclore.
Praias extensas e desertas, de água doce e ventania, onde vive a pesca e a monotonia.
Ah, que tristeza que dá, deixar o Marajó sem dia certo para voltar...
Por: Maria Claudia B. Silveira
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As duas estações: chuvas de dezembro a maio e sol de junho a novembro - alteram totalmente a paisagem. Os campos variam de um verde total no verão a um marrom de seca no inverno. Nos alagados do verão, milhões de aves revoam nos campos, e até a dura e crua terra tem uma beleza rara no inverno. Por isso, não é fácil dizer qual a melhor época, somente é bom saber que, se vier no verão, vai tomar muita chuva, mas vai valer a pena!
Mesmo que `Tocagem de Búfalo` soe estranho a você, essa é uma experiência incrível e característica da Fazenda Sanjo, não deixe de fazer.
Peça à D. Ana Tereza pela sopa de queijo de Búfala, ela não dá a receita, por isso, só na Sanjo para degusta-la!
Comentários |
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Louise Anne Menezespostado: 22/9/2008 22:05:04Bem eu não desejo a receita da sopa, mas gostaria muito de ter notícias de Ana Tereza, grande amiga da época do Colégio St Antônio. |
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