14 de Dezembro de 2004. Publicado por Adilson Moralez
Dando continuidade a matéria anterior onde falei sobre Santarém, Monte Alegre, Alenquer e Óbidos, vamos viajar agora pelas mais belas praias de água doce do Brasil: Alter-do-Chão e região.
Situado há 42 km de Santarém por estrada asfaltada (PA 457), Alter-do-Chão é uma vila com cerca de 2.000 habitantes localizada na margem direita do límpido rio Tapajós.
A beleza das águas do Tapajós e do lago verde, que rodeiam a vila, fizeram-na merecer o carinhoso apelido de Caribe brasileiro de água doce. Sua fama vem aumentando nos últimos anos e o turismo não para de crescer. Nos grandes feriados o fluxo de pessoas vindo de Santarém é muito grande e a vila fica praticamente intransitável.
Fora desses dias a vila é um tremendo sossego e andar pelas suas praias de areia branca quase nos faz esquecer que estamos numa praia de rio.
Até porque, o rio Tapajós tem em média 9-10 km de largura e próximo de desaguar no Amazonas chega aos incríveis 19 km de largura. Alter-do-Chão recebe muitos visitantes internacionais e é um paraíso ainda pouco conhecido por brasileiros, principalmente pelos do sul/sudeste.
Uma das grandes festas de Alter-do-Chão é o Çairé que acontece na primeira quinzena de setembro e trata da disputa dos botos: cor-de-rosa e tucuxi. A festa do Çairé é uma das maiores e mais antigas manifestação da cultura popular da Amazônia. Sua origem remonta ao período de colonização, quando os padres jesuítas, na sua missão evangelizadora pela bacia do rio Amazonas, envolviam música e dança na catequese dos indígenas. O símbolo do Çairé era usado como saudação em festas de santos, tendo em sua origem um caráter religioso, incorporando características populares com danças e folguedos.
Com o tempo essas características foram se reforçando a tal ponto que a Igreja proibiu sua realização em 1943. Em Janeiro de 1973 os moradores de Alter-do-Chão resgataram o evento, agora com cunho mais folclórico que religioso. O evento passou depois para julho e finalmente para setembro. A palavra Çairé origina-se dos dois termos Çai Erê, que significa “Salve! Tu o dizes”, que era usada pelos índios como forma de saudação.
Neste trecho da viagem, além do convite da agência Travel In de Belém, tive o apoio do Sebrae que através da Gekko, empresa de atividades turísticas e soluções ambientais, está empenhado no desenvolvimento do pólo turístico do Tapajós. Isso deu um outro enfoque para viagem, pois além de visitar os pontos turísticos da região visitamos várias comunidades com o objetivo de promover e divulgar seus trabalhos artesanais. Para me mostrar toda a região pude contar novamente com a grande ajuda do Taketomi do receptivo Vento em Popa de Alter-do-Chão que com suas lanchas me levou para conhecer todos os pontos turísticos da região.
Eu e Taketomi chegamos em Santarém (retornando de Monte Alegre) por volta das 11h e fomos até a agência do Sebrae nos encontrar com Thomas e Zeni da Gekko. Pegamos o carro fornecido pelo Sebrae e fomos todos para Alter-do-Chão.
Eu já estava sentindo saudades da vila e da pousada do Guariba, pois havia passado quatro dias viajando de carro e barco.
Poder ver novamente a ilha do amor praticamente deserta numa segunda-feira foi muito gratificante.
Aproveitei a tarde para fotografar a praia e ao cair da tarde fui passear de caiaque no igarapé do camarão.
No dia seguinte, como o dia era livre acatei a sugestão do Marcos da pousada Casa do Guariba e fui conhecer a vida do Sr. Reinaldo, um caboclo muito espirituoso de 59 anos que vive num sítio a caminho de Santarém.
Cheguei lá bem cedo e ele já estava trabalhando na preparação do beiju, um alimento muito comum a base de tapioca (mandioca). Enquanto contava suas histórias me levou para conhecer a mata de seu sítio.
No dia seguinte, o Taketomi me levou de lancha para conhecer o Igarapé do Macaco.
Este igarapé é um dos vários que abastece o lago verde e nos meses de seca é possível subir um bom trecho dele.
Com a lancha desligada utiliza-se apenas uma vara para não turvar a água. Depois saímos no Tapajós e fomos conhecer outras praias rio acima.
Passamos pelo lago do Muretá, Ponta do Caxambu e fomos até ponta do Pindobal.
Belterra fica há 48 Km de Santarém é acessível por estrada não pavimentada, barco e tem uma pista de 2.000 m para pequenas aeronaves. Sua população é de pouco mais de 14.000 habitantes e sua história é singular. Em 1927 a Ford Motor Company, líder na industria automobilística nos EUA, conseguiu junto ao governo brasileiro a concessão de uma área de um milhão de hectares para o plantio de seringueiras nos municípios de Itaituba e Aveiro.
Assim surgiu a Fordlândia, uma cidade inspirada no estilo das pequenas cidades do sul do EUA com o objetivo de produção de borracha. Em 1934, devido ao surgimento dos primeiros problemas da “doença das folhas” e como Fordlândia ficava distante de Santarém e ainda pelo fato do rio Tapajós não oferecer navegabilidade durante os meses de seca para navios de grande porte, Ford conseguiu permutar uma área de 281.500 hectares por uma área de igual tamanho mais próximo de Santarém. Surgia assim, a cidade de Belterra, que tal qual Fordlândia tinha toda a infra-estrutura de uma cidade americana: hospital, escolas, sistema de água e esgoto, energia elétrica, telefone, fábrica de gelo, praças de esportes, serraria, etc.
Em 1943 Henry Ford desistiu do projeto e dentre as muitas razões especuladas foram a falta de mão-de-obra e a morte repentina de seu filho Edsel Ford, que comandava a empresa.
Hoje Belterra ainda preserva muito dessa história, porém boa parte das casas está em más condições de conservação e eles não conseguem investimentos para sua preservação.
Nossa permanência em Belterra limitou-se a uma manhã onde além de fotografar fomos conversar com o secretário de Turismo e meio ambiente Chardival para obter informações sobre o município.
Saímos bem cedo com destino à ponta do Jarí passando por Ponta de Pedras que é uma pequena vila há 20 min de lancha de Alter-do-Chão.
Fomos visitá-la juntamente com a Zeni, pois lá o Sebrae está desenvolvendo um projeto junto à comunidade. Dentre outros, o projeto ajudou na padronização das barracas da praia e na construção de uma maloca (quiosque coberto de palha) para apresentações de danças e eventos da comunidade.
As praias de ponta de pedra são maravilhosas e por estarem numa ponta mais exposta ao rio tem ondas como o mar.
Em seguida partimos para a Ponta do Jarí, que é um canal de ligação entre Tapajós e Amazonas.
Nesse canal é possível avistar jacarés, iguanas e muitos pássaros.
Passamos na sede de uma das comunidades para divulgar um treinamento que o Sebrae estaria promovendo na próxima semana. Nosso almoço foi um piquenique na casa do Sr. Maia e passamos a tarde curtindo o sossego na rede aguardando o sol ficar mais fraco para retornar. No caminho de volta estava previsto ver a revoada de pássaros retornando para dormir na entrada do canal, mas nessa época do ano eles devem migrar para outro local, pois havia poucos deles.
Chegamos em Alter-do-Chão já era noite e recebi um convite para participar da piracaia. Uma tradição na região que consiste em juntar um grupo de pescadores e suas famílias na praia para saborear peixe assado na brasa.
O peixe é servido em cuias forradas com folha de bananeira e guarnecido com farinha de tapioca. Para a piracaia também foram convidados os alemães (que encontramos em Monte Alegre) que estavam de passagem pela vila.
O peixe preparado pelo Hugo, consultor da Gekko, estava delicioso. Após a refeição tivemos uma apresentação folclórica da dança do boto.
Acordei bem cedo e após o café da manhã fomos de lancha para a FLONA (Floresta Nacional do Tapajós) onde estão as comunidade do Maguari e Jamaraquá que ficam na margem direita do Tapajós.
Em Maguari está sendo desenvolvido um projeto inovador que é a confecção do couro ecológico num processo comunitário e artesanal. O couro ecológico é constituído por um tecido de algodão, no qual são aplicadas várias camadas de látex da seringueira que, submetido a um processo de defumação ou secagem ao sol, torna-se impermeável e resistente.
O produto final assemelha-se ao couro animal e tem despertado grande interesse nos artesãos e fabricantes de confecções e calçados. O projeto está recebendo apoio de diversas entidades: ProManejo/PPG7, Flona do Tapajós/IBAMA, USAID e Inst. Internacional de Educação no Brasil.
Passamos boa parte da manhã vendo o processo de produção da manta, corte e montagem dos produtos. Muito interessante saber isso tudo começou de uma forma muito simples e já evoluiu para um trabalho em comunidade e já conseguiram construir galpões e comprar novos equipamentos com o apoio recebido.
O próximo ponto no roteiro foi a comunidade de Jamaraquá onde fizemos uma trilha na mata para visitar uma das maiores árvores da Amazônia: a Samaumeira. Foram duas horas de trilhas para chegar nelas e segundo o guia ainda não é a maior da Flona. Ficamos impressionados com a força da natureza para criar e manter uma árvore daquele porte.
Após a trilha retornamos para a casa de Dona Conceição para saborear uma deliciosa galinha caipira.
O último programa do dia foi mergulhar de snorkel num igarapé de águas cristalinas para observar as algas e peixes. Apesar da pouca luz, pois já estava tarde, deu para ter uma boa idéia das maravilhas daquele lugar. Me senti num enorme aquário rodeado de acará bandeira e acará disco (famosos peixes de aquário).
À noite fui jantar na vila e aproveitar para conversar com as pessoas e saber um pouco mais do local.
A programação dos próximos dois dias foi conhecer a comunidade de Urucureá que fica cerca de 5 horas de barco rio abaixo. Para esse passeio tivemos que contratar um barco maior, pois é necessário cruzar o trecho mais largo do Tapajós. Após todo um esforço de logística conseguimos o barco, diesel e gelo para a viajem. Nesse destino além da Zeni tivemos a companhia da oceanógrafa Carol, e da bióloga Tâmara, que foram apresentar um novo projeto do Sebrae para a comunidade.
Após muitas ondas e muito sacolejo chegamos em Urucureá por volta das 15h. Fomos até a casa de Dona Zumira, que nos hospedaria na comunidade naquela noite e em seguida fomos conhecer outras famílias de artesãos.
Dentre elas a Dona Suzana, uma senhora de 82 anos que trabalha diariamente na confecção de peças com a palha do tucumã. Aliás, Urucureá é famosa pelo número de famílias que trabalham com artesanato e fiquei surpreso com as belas peças que elas produzem.
A vida ali é bem simples sem qualquer infra-estrutura, banho e banheiro são externos, não há energia elétrica e foi minha primeira noite dormindo numa rede. Foi bom – gostei.
Na manhã seguinte acordei às 5:15h e após o café a programação foi uma trilha na mata com os guias Jessé e Rodrigo. Após algumas horas caminhando ouvindo os sons de macacos conseguimos avistar alguns (zog-zog, amarelinho e sagüis).
Retornamos para a comunidade e aguardamos a Carol e Tâmara terminarem sua palestra.
Depois de um bom banho nas praias do rio Arapiuns retornamos para Alter-do-Chão.
De volta à Alter fui direto para a praia, tomar meu último banho e em seguida saborear meu último filé de Pirarucu. Não podia partir sem isso.
Aproveitei a linda luz de fim de tarde para fazer mais fotos da praia. Despedi-me de todos, pois foram muitas amizades nesses 15 dias que lá fiquei. Devo confessar que deixei Alter-do-Chão com o coração partido, pois nunca havia me envolvido tanto com um local.
Alter-do-Chão tem suas belezas o ano todo, porém a melhor época para praias é de setembro a dezembro. Chove pouco e as praias estão maravilhosas. No inverno quase não há praias e a ilha do amor fica praticamente coberta pelas águas. Lembre-se que em setembro tem a festa do Çairé e a vila fica muito agitada. Outra grande vantagem da região do Tapajós e que devido a acidez de suas águas não há mosquitos (pernilongos).
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Comentários |
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Gianepostado: 12/11/2008 01:45:56Fica mto caro uma viagem dessa? |
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Giane Para preços recomendo que voce procure uma agência de viagem. Quem deu suporte na época foi a |
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