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É DO PERU

Acho que faz muito tempo que saí de casa. Me deu uma saudade de todos... Realmente o Amyr Klink está certo, é preciso ir longe para saber o real valor de um lar, dar a importância merecida a pequenas coisas boas da vida, como ir ao um cinema ou bater papo

13 de Maio de 2001. Publicado por Equipe EcoViagem  

Acho que faz muito tempo que saí de casa. Me deu uma saudade de todos... Realmente o Amyr Klink está certo, é preciso ir longe para saber o real valor de um lar, dar a importância merecida a pequenas coisas boas da vida, como ir ao um cinema ou bater papo com amigos num botequim da esquina. Coisas simples, mas que não damos valor quando estamos aí, que parecem simples demais para serem importantes. Minha bunda dói. Já se foram 15.617 km em doze dias. Segundo o GPS, esse aparelhinho mágico que não deixa a gente errar o caminho, ficamos 229 horas e 10 minutos sentados no nosso Subaru Forester desde que saímos do Alasca. E olha que ficamos 3 dias parados no transporte do carro entre Panamá e Colômbia. Aliás, o carro não é mais só um carro, é parte integrante da nossa família. Cada coisinha que acontece com ele, um trincadinho no vidro, um buraco mal desviado, sofremos juntos. Ele é o maior responsável por nossa boa atuação, comendo asfalto de todos os tipos sem reclamar, subindo alto, perto do céu e descendo junto do mar, sem nenhuma tossidinha. Nossa contribuição é dar o melhor alimento possível, sem nos interessar o preço. Gasolina, só Super. Tenho certeza de que sua alma, sim, carros têm alma, assim como veleiros, aviões etc, um tipo diferente de alma, mas não deixam de ser almas, está junto com a gente, e nos levará com segurança ao nosso destino em Ushuaia.

Agora, nesse exato momento que escrevo esse boletim, o Marcelo e o nosso Forester estão rasgando o asfalto em direção a Lima, capital do Peru. Nosso GPS indica que faltam 457 kms, e como são 19hs17, vamos chegar lá pelo início da madrugada. Um ótimo horário, já que assim fugimos do trânsito pesado. Ontem foi uma chateação passar por Quito, no Equador, bem na hora do rush. As estradas que eram cheias de curvas e em grandes altitudes se aquietaram, e agora devemos pegar retões que beiram o Pacífico até Santiago do Chile, uns 3 mil quilômetros mais ao sul. O maior problema é o tráfego contrário, que insiste em manter os faróis altos quando cruzam com a gente. Até agora os pedágios são grátis, daqueles que você paga só na volta... volta? Vai demorar um bocadinho, seu moço. Segundo nosso informante, o próprio Marcelo, que fez essa viagem cinco anos atrás, a situação do Ecuador (aqui eles escrevem assim) melhorou muito. As pessoas que pediam ajuda na estrada praticamente sumiram. Mesmo as condições do asfalto, postos de gasolina, restaurantes, é outra. Talvez seja a melhora da economia, após a indexação da moeda local com o dólar. Nem precisamos fazer câmbio, pagamos tudo em dólar, até a gasolina, que é muito barata (US$ 1 por galão = 3,7 lts). Ainda segundo Marcelo, o Peru também melhorou, só uma serra que ele me dizia desde o início da viagem é que não veio trabalhar. Até agora, nem sinal dela, ainda bem! Prefiro ele com cara de interrogação do que eu com enjôo. Não sei quanto a vocês, mas escrever dentro do carro me faz mal. Bom, vou me despedindo por hoje, ainda faltam 422 km até Lima, mais uns 1000 até a fronteira com o Chile e mais uns 5 mil até Ushuaia. Já falei que minha bunda dói?

PS: só porque eu falei, o Marcelo achou a tal da serra (vejam a foto!), que para a nossa sorte, também foi melhorada.

Nem chega perto do que enfrentamos no Equador ou Colômbia. A sua cara deixou de ter um ponto de interrogação, e está feliz da vida com a minha cara de "puxa, você estava certo". Devia ter escrito antes.

Agora são 8 da manhã e já rodamos mais de 1500 quilômetros. O Cacá dormiu até o amanhecer e eu nem me importei de dirigir 550 kms direto, pois a estrada é um tapete. Como o Cacá escreveu, o único problema é enfrentar o farol alto dos caminhoneiros. Um pouco antes do nascer do sol também havia muita neblina. Tive a impressão de ser um lugar lindo, mas não dava prá saber ou ver nada. Acabamos de fazer uma parada rápida em Nascar, onde há enormes desenhos rupestres no solo pedregoso. Alguns acreditam que foram feitos por extra-terrestres.

Agora vamos em direção ao Chile - ainda faltam quase mil quilômetros - e esperamos cruzar a fronteira até o final da tarde deste domingo, quando completamos 2 semanas de viagem. Depois contamos mais.

Ah, aqui seguem mais algumas respostas e agradecimentos aos e-mails que temos recebido.

O Jaime pergunta sobre as condições de estrada. Bem, Jaime, se você tem acompanhado nosso Diário, temos sempre dado alguma ênfase às condições das estradas, pois é o que temos mais vivido. Mas, de forma geral, achamos estradas melhores do que esperávamos. Na América Central, por exemplo, pela pobreza dos países elas elas poderiam estar bem abandonadas, mas estão boas. E daqui prá frente esperamos só alegria. O maior trecho não pavimentado foi logo na largada, de Prudhoe Bay até Fairbanks (Alaska), com 800 quilômetros. De resto, apenas encontramos trechos isolados sem asfalto.

Adoramos receber um e-mail da Anna Mortara, de apenas 11 anos, e que está acompanhando a viagem pelo site. Ela pergunta qual de nós escreve o Diário. Anna, temos nos revezado nas tarefas. Agora, por exemplo, sou eu quem está escrevendo. Eu quem? Eu, Marcelo. Quem sabe se você prestar bem atenção vai começar a perceber se há diferenças de estilo. A Mônica Mortara também escreveu. Será que é mãe da Anna? O Tiago pergunta como tiramos as fotos se dissemos que apenas paramos para abastecer e fazer necessidades. Boa sacada, Tiago. Falha nossa. Também paramos para tirar as fotos que vocês estão vendo no site, além de outras fotos que esperamos publicar, e também para fazer vídeo, que esperamos mostrar ao Brasil inteiro. Mas a maior parte é mesmo em movimento. Calculo que investimos, em média, 15 minutos por dia parados para ter um material um pouco melhor.

Escreveram e agradecemos: Flavião e family; Marcão e Cláudia; Cláudia e Bo, de Fort Lauderdale; o Silva, também na Flórida; o Renato, do Rio de Janeiro

 

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