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Politicamente correto

29 de Janeiro de 2003. Publicado por Equipe EcoViagem   Autor Samuel Branco

Observa-se hoje uma crescente fobia em relação a certas palavras e expressões que, embora consagradas no nosso vernáculo, nos dicionários e nos textos clássicos, passaram a ser qualificadas de "politicamente incorretas". Essa nova idiotice tem, como fundamento alegado, a rejeição de preconceitos raciais ou de gênero, que poderiam melindrar os ouvidos pudibundos de zelosos guardiões de toda indiscriminação.

Assim, é necessário ter-se muito cuidado no emprego, por exemplo, de palavras como negro, ou preto mesmo quando se referindo a objetos não-humanos ou a circunstâncias, como na tradicional e expressiva frase: "a situação está cada vez mais negra"... Ou então, que possam sugerir situação de inferioridade ou subordinação do sexo feminino em relação ao masculino. Fica, pois proibido - principalmente em textos educacionais - o uso de "homem", quando se refere a todo o ser humano.

É estarrecedor esse confisco do vernáculo, oriundo da confusão cerebral de alguns histéricos defensores do "politicamente correto". É evidente que as mulheres, assim como os negros, em suas reivindicações feministas e de igualdade racial, não se referem a palavras ou a alterações na linguagem e sim aos costumes que, até há pouco, os situavam em um segundo plano em relação aos direitos de cidadania, de trabalho e de competência.

É ridículo tentar mutilar o nosso idioma eliminando, por exemplo, o significado de "gênero humano" atribuído semanticamente ao vocábulo "homem", ou ocultar aos nossos estudantes o real significado da palavra "negro". Do contrário, como ficaria a nossa literatura despojada, por exemplo, do capítulo crucial de Euclides da Cunha, intitulado "O homem", referindo-se ao nosso sertanejo?

Deveríamos produzir edições mutiladas, substituindo-o por... "O gênero humano (do sertão)"? E a famosa e belíssima frase "O sertanejo é antes de tudo um forte", ficaria talvez: "O sertanejo (a) é antes de tudo um (a) forte?". - Ou Euclides seria definitivamente condenado e extirpado da nossa literatura, por não ser um autor "politicamente correto"?

Vamos deixar de bobagens e começar seriamente a pensar na cultura de nosso país!

 

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