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Bicicletas em trilhas

3 de Junho de 2003. Publicado por Eliana Britto Garcia e Rodrigo Telles  

Fazer ou não trilhas de bicicleta? Essa é uma discussão muito comum atualmente. Está crescendo cada vez mais o número de pessoas que gostam ao mesmo tempo de bicicleta e de natureza. Conseqüentemente o uso da bicicleta em trilhas está sendo tomado como alternativa para se unir essas duas coisas.

O que precisa ser discutido, então, são as conseqüências dessa prática. É sabido que não é possível usufruir da natureza, seja a pé ou de bicicleta, sem estar causando um prejuízo para a mesma. A questão é como minimizar esse prejuízo.

A bicicleta leva uma desvantagem neste caso. Existem alguns motivos pelos quais um ciclista normalmente é mais prejudicial às trilhas do que uma pessoa caminhando.

Em primeiro lugar temos o problema da pressão sobre o solo. Desconsiderando o peso da bicicleta podemos afirmar que a força exercida sobre o solo é mais ou menos igual no caso do ciclista ou do pedestre. Porém, a área de contato com o solo é muito menor no caso dos ciclistas, fazendo com que a pressão (P=F/A) seja maior. Com isso, o desgaste do terreno ocorre com maior intensidade, principalmente nos degraus, solos úmidos ou menos compactos, além de pequenas raízes superficiais.

Depois temos a questão das acelerações. Freando e acelerando nas subidas, descidas e degraus da trilha, ocorre invariavelmente um pequeno deslizamento entre os pneus e o chão. Essa fricção solta e desloca um pouco de material do solo. Andando a pé normalmente conseguimos diminuir grande parte desse efeito, pois os pés derrapam menos no terreno.

Por fim, temos o problema da velocidade. Andando a pé, você tem tempo de escolher bem onde vai apoiar o seu peso e é natural que acabe utilizando os locais mais firmes. Já de bicicleta, o movimento rápido e o equilíbrio por vezes não nos permitem escolher o melhor local. Além disso, temos que considerar que andando a pé precisamos apenas de alguns pontos firmes numa trilha para evitar a degradação, pois o contato com o solo é como uma linha pontilhada. Já de bicicleta, imprimimos uma linha contínua no solo e por isso, teremos uma probabilidade bem maior de passar por pontos sensíveis.

Mas como uma pequena derrapada pode estragar tanto uma trilha? Na verdade, uma trilha por si só já está fadada a uma lenta degradação, mesmo sem estar sendo utilizada. A chuva é o grande agente. A trilha funciona como um canal de escoamento para a água que acaba levando consigo uma certa quantidade de material. Ao passarmos de bicicleta numa trilha estamos ajudando a soltar o material do solo (terra, pedras e em alguns casos plantas) aumentando muito a intensidade da erosão. A partir daí acontece um círculo vicioso, isto é, a trilha começa a se alargar e se aprofundar aumentando a quantidade de água que corre por ela. Por isso, ao contrário do que se imagina, uma trilha muito degradada não se recupera naturalmente. E manutenção de trilhas é uma tarefa muito complexa, extremamente trabalhosa e cara, e definitivamente não é a realidade do nosso país.

Mas e quem gosta de fazer trilhas de bicicleta? Bom, provavelmente solução perfeita não exista. O jeito é tentar se adaptar com criatividade. Procurar trilhas em locais menos preservados como fazendas, por exemplo, evitando as áreas de proteção ambiental. Ou se a natureza é tão importante, por que não ir até a entrada da trilha de bicicleta e percorrê-la a pé? Nem sempre é possível unir o útil ao agradável da maneira como gostaríamos.

 

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