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Jericoacoara e o Turismo em massa

Por Jeovah Meireles Os diversos tipos de impactos ambientais existentes ao longo do litoral cearense estão promovendo uma verdadeira transformação na paisagem. Afetaram os processos naturais, sócio-econômicos e culturais que possibilitaram um desenvo

14 de Agosto de 2002. Publicado por Equipe EcoViagem  

Por Jeovah Meireles

Os diversos tipos de impactos ambientais existentes ao longo do litoral cearense estão promovendo uma verdadeira transformação na paisagem. Afetaram os processos naturais, sócio-econômicos e culturais que possibilitaram um desenvolvimento ordenado e crescente das reações ambientais que estruturaram o sistema costeiro cearense. No caso de Jericoacoara, estamos presenciando como um paraíso ecológico (e um dos mais complexos do planeta!), está sendo descaracterizado pelo incremento do turismo.

É importante salientar que qualquer tipo de intervenção do homem sobre esta planície costeira, deverá ser fundamentada em um exaustivo conhecimento dos impactos ambientais, necessariamente abordados por uma equipe técnica multidisciplinar. Imprescindível nessa abordagem, a participação direta da comunidade que ali vive.

As unidades da paisagem litorânea (praia, falésias, gerações de dunas, lagoas, lençol freático, canais de maré e estuários, terraços marinhos, morros e a Vila), edificadas por processos altamente energéticos conduzidos pelos ventos, ondas, marés, fluxos hidrodinâmicos superficiais e subterrâneos e, diversos ecossistemas associados, foram construídos em uma interdependência evolutiva incapaz de não ser degradada, perante as intervenções antrópicas mal planejadas: elevar em milhares o acesso e permanência (mesmo que temporária) de turistas e novos moradores, modificando a estrutura urbana e social da Vila de Jeri, certamente irão interferir nos demais conjuntos de unidades ambientais, que atualmente estão agrupadas no Parque Nacional.

As pressões exercidas pelo homem (sobre as dunas, lagoas interdunares, água presente no subsolo, as praias e falésias) para acolher uma indústria de turismo de massa, até agora não foram fundamentadas a partir da definição das estruturas física e ecológica do meio ambiente, nem muito menos na dinâmica da paisagem e seus aspectos culturais e sócio-econômicos locais.

Acarretarão problemas relacionados com a contaminação do lençol freático e lagoas, interferências na migração das dunas, produção de toneladas diárias de lixo, compactação do solo, soterramento de ecossistemas, mananciais e fontes naturais, incremento da erosão do solo e praias, poluição visual e sonora, mudanças na circulação dos ventos locais e alterações no conforto térmico da vila. Além desses impactos, são muito bem conhecidos os que geram especulação imobiliária e danificam a cultura, o modo de vida e a posse da terra dos pescadores e agricultores.

O planejamento ambiental, a partir de uma abordagem integrada, não para o desenvolvimento de atividades deste porte, mas para compatibilizar o uso atual com uma adequada proteção da biodiversidade e preservação da qualidade ambiental do sistema costeiro de Jericoacoara, representa uma das principais medidas para um turismo sustentável. Operacionalizar medidas de gestão e manejo, levando em conta exemplos de outras planícies costeiras, que se encontram em franco conflito com aquele tipo de turismo, demonstrará sabedoria e maturidade dos legisladores e administradores públicos.

A duna de onde se aprecia o mais belo pôr do sol deste lado de cá do hemisfério, continua migrando ao sabor dos ventos. Depara-se cotidianamente com as ondas do mar, que se encarregam de transportá-la para originar os campos de dunas de Nova Tatajuba. As dunas se vão... mas deveremos lutar pela permanência e melhoria da qualidade de vida e ambiental dos moradores da Vila de Jericoacoara.

Jeovah Meireles é Professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Doutor em Geografia Física pela Universidade de Barcelona - Espanha. meireles@ufc.br

 

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