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A importância das commodities ambientais para o exercício da responsabilidade socioambiental

As commodities ambientais são mercadorias originadas de recursos naturais em condições sustentáveis e são os insumos vitais para a manutenção da agricultura e da indústria. Ou seja, constituem um complexo produtivo que envolve sete matrizes: água, energia

3 de Maio de 2005. Publicado por Vininha F. Carvalho  

As commodities ambientais são mercadorias originadas de recursos naturais em condições sustentáveis e são os insumos vitais para a manutenção da agricultura e da indústria. Ou seja, constituem um complexo produtivo que envolve sete matrizes: água, energia, minério, biodiversidade, madeira, reciclagem e controle de emissão de poluentes (água, solo e ar).

A matriz água, bem como as outras matrizes, podem ser tratadas como reprodutoras de commodities ambientais (moeda do meio ambiente) somente se as variáveis sociais – nível de educação, distribuição de renda, saúde, empregabilidade – dos cidadãos forem levadas em consideração e se houver a participação da sociedade na manutenção, destinação, administração e principalmente na comercialização, de acordo com leis claramente estabelecidas.

Isso preservaria a soberania nacional dos povos e também contribuiria para erradicar a fome e a miséria em nível global, com respeito às leis naturais.

As commodities ambientais obedecem a critérios de extração, produtividade, padronização, classificação, comercialização e investimentos e têm um tratamento diferente daqueles produtos chamados, no jargão do mercado financeiro, de “commodities” (mercadorias padronizadas para compra e venda).

Não são, assim, mercadorias que se encontram na prateleira dos supermercados, na lista de negócios agropecuários, nem entre os bens de consumo em geral industrializados, mas estão sempre conjugados a serviços socioambientais como o ecoturismo, turismo integrado, certificação,educação,marketing, comunicação, saúde, pesquisa, história entre outros.

Mercado de commodities ambientais:

No mercado de commodities ambientais, os fornecedores e produtores são a população carente, os indivíduos que podem representar, ou melhor, já representam riscos sociais. O cidadão de baixa renda que mora próximo a mananciais, o caboclo que queima a floresta nativa para ampliar sua área agriculturável convertem-se em proprietários de commodities ambientais, ou seja, figuras centrais deste mercado.

Encontram aqui uma alternativa de subsistência, o direito a um trabalho, uma luz para sua auto-estima, a promoção da cidadania e da recuperação social. De tal modo que, nenhum `ativo`, cuja propriedade é da sociedade, ou seja, dos cidadãos, e cuja função é otimizar o usufruto aos demais cidadãos do planeta pode ter um tratamento meramente financeiro.

Transformar água em papel é fácil, mas a questão é fazer disto uma commodity ambiental! O objetivo do Projeto BECE, por exemplo, é no sentido de identificarem-se as informações vitais para a tomada de decisão de investidores.

Rastrear quanto dos insumos das commodities tradicionais produzidos pelo conceito commodities ambientais resultaram na inserção dos excluídos no mercado tradicional; e quantas pessoas tiveram acesso a tratamento de saúde, educação, informação, dentre outras ações com gestão participativa e compromissadas de suas lideranças comunitárias.

Para melhor compreensão, as `commodities tradicionais` `(ou convencionais) são mercadorias padronizadas para compra e venda, ou seja, tudo o que está na prateleira do supermercado.

Por exemplo, dentre as `commodities tradicionais` encontram-se garrafas de água mineral, todas iguais e com a mesma quantidade, o mesmo critério de engarrafamento, o mesmo tratamento fitossanitário.

O consumidor que compra uma `commodity tradicional` exige certificado de qualidade, selos que comprovem a fiscalização sanitária e, nos dias de hoje, questiona se se tratam de alimentos transgênicos ou orgânicos.

Para ser uma `commodity`, o produto passa por uma série de exigências de comercialização, tributação e transporte, além de enfrentar negociações com os agentes internacionais na sua colocação no mercado externo.

A `commodity` disputa espaço enfrentando embargos, barreiras tarifárias e não-tarifárias, como se pôde verificar recentemente no caso da carne brasileira, embargada por um curto período em decorrência de suspeitas infundadas de contaminação pelo vírus da Vaca Louca.

Pelo mesmo crivo passam as `commodities ambientais`. Assim, `commoditizar` não é algo tão simples como retirar orquídeas, bromélias, xaxins entre outros da Mata Atlântica e vender em mercados e estradas, tal qual muitos fazem, sem qualquer sustentabilidade.

Justamente por obedecerem a critérios de padronização, as `commodities` poderiam ser chamadas de `moeda`, pois transformam-se em dinheiro rapidamente em qualquer parte do mundo. Como diriam os economistas, as “commodities” têm liquidez, ou seja, têm vendedores dispostos a oferecer os produtos do meio ambiente retirados em condições sustentáveis e compradores dispostos a pagar por esses produtos, mesmo que por um preço mais alto do que pagariam por aqueles retirados sem sustentabilidade.

As commodities ambientais obedecem a critérios de extração, produtividade, padronização, classificação, comercialização e investimentos e têm um tratamento diferente daqueles produtos chamados, no jargão do mercado financeiro, de `commodities` (mercadorias padronizadas para compra e venda).

No modelo estratégico das commodities ambientais há no centro o `cidadão` (legítimo representante do Mercado) que unifica o Sistema Financeiro e o Meio Ambiente.

Não são, assim, mercadorias que se encontram na prateleira dos supermercados, na lista de negócios agropecuários, nem entre os bens de consumo, em geral, industrializados.

Diferentemente das commodities tradicionais, as commodities ambientais obedecem um modelo em que no topo encontram-se os `excluídos` (aqueles que não tem emprego e renda), a direita está o mercado financeiro e a sua esquerda o meio ambiente. A diferença está na base do modelo monterário deste novo mercado que está sendo construído no Brasil.

A BECE propõe também, que as commodities ambientais sejam identificadas com o selo do Bioma na qual são produzidas (mata atlântica, pantanal, amazônico, cerrado, caatinga, pampa-campos sulinos, marinhos e costeiros - restingas, manguezais e marismas), que podem ser exportadas para outros países, abrindo espaço para o lançamento dos produtos oriundos destes biomas (commodities tradicionais) e convidando os investidores para conhecerem esses ecossistemas, sua gente, cultura e história, aproximando-os afetivamente das comunidades e transformando-os em parceiros fiéis, comprometidos com o crescimento econômico sustentado, ou seja, o crescimento socioambiental a longo prazo.

Detalhe, o tratamento financeiro para commodities em países onde a taxa de juros é estável é bem diferente daquele de países com juros altos – como é o caso brasileiro, nos quais toda iniciativa produtiva tem sido inviabilizada pela especulação financeira.

Assim sendo, as sete matrizes das commodities ambientais resguardam-se sobre o manto da Soberania Nacional, já que constituem os bens que pertencem ao povo brasileiro e são explorados no território brasileiro.

A princípio, pressupõe-se que a gestão financeira destes recursos naturais cabe ao Estado, revertendo-os em benefícios que, de um lado, não dão lucros imediatos, não contabilizam juros nas contas dos fundos, tampouco podem ser ativos especulativos, mas, de outro, constituirão em investimentos em educação, saúde, cultura e meio ambiente.

Construção participativa do modelo:

O desenvolvimento desse novo mercado requer a conscientização de todos os segmentos da sociedade civil organizada, e a sensibilização dos empresários, banqueiros, empreendedores, políticos e governos sobre a importância de criar condições para uma economia justa, socialmente digna e politicamente participativa e integrada.

Isso se dará por meio de discussões envolvendo princípios filosóficos do desenvolvimento sustentável e debates sobre as interações entre o Meio Ambiente, Direitos Humanos e o Mercado Financeiro.

Não poderia ser diferente, pois seria praticamente impossível desenvolver mecanismos para gerar negócios, financiados pela democratização do capital, sem que haja o envolvimento e o comprometimento daquele que será seu proprietário e maior beneficiário: o povo brasileiro!

Desta forma, os serviços ambientais podem formar os laços fraternais entre o ser humano e o meio ambiente representando uma perspectiva de `mercado consciente`. E as empresas, no exercício de sua responsabilidade socioambiental, podem responder às necessidades de curto e médio prazo para a construção participativa e integrada da Bolsa de Commodities Ambientais.


oria: AMYRA EL KHALILI - Economista, Presidente da OSC CTA, Idealizadora & Fundadora do Projeto BECE. Com duas décadas de experiência nos Mercados Futuros e de Capitais, tendo ocupado cargos relevantes em Corretoras e Bancos de Investimentos.

Foi `dealer` do Banco Central do Brasil, Banco do Brasil, Bombril S/A, Grupo Vicunha entre outros. É profunda conhecedora do Sistema de Garantias e Salvaguardas da BM&F.

Foi Professora de Engenharia e Estratégias de Operações em Risco em cursos de extensão da FEA/FIPE/ESALQ- USP/FGV/BM&F/BCSP entre outras.

Participou do Lançamento dos Contratos de Commodities Agropecuárias da BM&F, em especial, fez a Rota da Soja com 30.000 Km e centenas de vôos implantando instrumentos derivativos.

Trabalhou no Projeto de Reconstrução Econômica no Líbano em apoio ao Estado Palestino nos Acordos de Oslo (93). É Co-Editora da Rede CTA-JMA, Membro do Conselho Editorial do Jornal do Meio Ambiente (Editado por Vilmar Berna Premio Global 500 da ONU para Meio Ambiente).


tato: vininha@vininha.com

Visite: www.revistaecotour.com.br

 

Comentários

 
 

Alex Xavier

 postado: 28/8/2008 08:44:10

Muito bom para os trabalhos acadêmicos.


 
 
 

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